'Vivi uma vida deliciosa': professora brasileira com doença degenerativa tem morte assistida na Suíça
'Vivi uma vida deliciosa': brasileira com doença degenerativa tem morte assistida na Suíça A professora de Campinas (SP) Célia Maria Cassiano passou por um ...
'Vivi uma vida deliciosa': brasileira com doença degenerativa tem morte assistida na Suíça A professora de Campinas (SP) Célia Maria Cassiano passou por um procedimento de morte assistida nesta quarta-feira (15), na Suíça. Diagnosticada com atrofia muscular parogressiva (AMP), uma doença degenerativa, ela compartilhava a rotina e os desafios impostos pela condição em suas redes sociais, e em um vídeo de despedida, afirmou ter vivido "uma vida deliciosa" - assista acima. Célia estudou Ciências Sociais e fez mestrado em Multimeios na Unicamp, atuando como educadora na área de artes no Sesc e na Esamc, em Campinas. Após receber o diagnóstico em outubro de 2024, ela passou a usar as redes sociais para falar abertamente sobre a doença, mostrando as dificuldades motoras e a sensação de estar presa em um corpo que, aos poucos, deixava de responder. "É uma doença incapacitante, progressiva. Eu vivo meus piores pesadelos, porque não tenho ideia de como eu estarei amanhã. Você está presa dentro do seu corpo, seu corpo está perdendo os movimentos, e toda essa dificuldade 'pra' sair e se movimentar em casa", desabafou em vídeo em dezembro de 2025. 📲 Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp Célia também chegou a desabafar sobre a perda da vida social: "Eu consigo fazer alguns passeios, dependendo da boa vontade de quem me convidou. A maior parte do tempo eu fico só com cuidadores, fisioterapeutas, farmacêuticos, médicos, terapeutas, pessoas para as quais estou pagando para cuidar de mim", afirmou. Com o avanço da doença, a professora passou a depender de cuidadores de forma constante, inclusive para tarefas como se alimentar e tomar banho. Em março, após perceber alterações na voz, ela criou um documento com Diretivas Antecipadas de Vontade (DAV), no qual afirmava que não aceitaria procedimentos invasivos para prolongar sua vida. Célia Maria Cassiano, diagnosticada com uma doença degenerativa, teve morte assistida na Suíça. Reprodução/Redes sociais A despedida No dia 11 de abril, Célia começou a publicar fotos de uma viagem à Zurique, na Suíça, dizendo a amigos que participaria de um tratamento experimental. No entanto, nesta quarta-feira, ela revelou em um novo vídeo que viajou ao país para realizar o suicídio assistido, organizado ao longo de sete meses com uma ONG especializada. "Vou ter duas enfermeiras do meu lado e não vou sentir dor nenhuma. Estou no limite da minha dignidade. Vivi uma vida deliciosa e os últimos dias aqui foram os melhores da minha vida. Daqui a pouco vou descansar para sempre, como todos nós vamos", disse. Ao final, deixou uma mensagem: "Lutem por esse direito no Brasil, uma lei que permita uma escolha para quem assim desejar". Célia Maria Cassiano, diagnosticada com uma doença degenerativa, teve morte assistida na Suíça. Reprodução/Redes sociais Morte assistida e a lei Tanto a eutanásia (quando a equipe médica administra o medicamento) quanto o suicídio assistido, em que a ação é do próprio paciente, são práticas consideradas ilegais no Brasil. No Código Penal brasileiro, essas práticas são entendidas como homicídio ou indução ao suicídio, segundo o advogado Nelson Guimarães Barros. LEIA TAMBÉM: A morte assistida é complementar aos cuidados paliativos, diz advogada Geriatra que acompanhou paciente descreve como funciona o suicídio assistido Já a ortotanásia, quando um paciente em estado terminal decide não passar por intervenções que prolonguem a vida, permitindo que a morte ocorra de forma natural, é regulamentada no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina, na resolução nº 1.805/2006. Luciana Dadalto, presidente da Eu Decido, associação procurada por Célia na busca de informações sobre o tema no Brasil, defende que o tema seja mais discutido no país. "O processo é longo, tabus precisam ser quebrados. Temos que olhar para essas pessoas e o sofrimento delas", analisa. A presidente comenta que há um movimento de pacientes em busca desse direito que vão à Suíça por ser o único país que permite o suicídio assistido para estrangeiros não residentes. "A pessoa ter que fazer todo esse deslocamento é uma violência", afirma. A presidente da organização afirma, ainda, que a morte assistida não é uma obrigação, mas uma escolha. "Uma escolha que não existe hoje no Brasil", disse. Procedimento na Suíça O suicídio assistido é quando uma pessoa recebe de médicos os medicamentos para pôr fim à própria vida, mas é ela quem administra a dose. Já na eutanásia, a substância é aplicada pela equipe médica. Em alguns países, como Colômbia, Suíça e Canadá, o suicídio assistido é permitido em situações específicas, geralmente com avaliação médica e acompanhamento do caso. Nesses locais, o paciente precisa atender a critérios legais e tomar a decisão de forma voluntária. A legislação suíça, por exemplo, permite o suicídio assistido desde que não seja por "motivos egoístas". "Um exemplo seria incitar deliberadamente uma pessoa a cometer suicídio para se livrar de ter que pagar apoio financeiro para essa pessoa", cita a associação suíça Dignitas, que oferece suicídio assistido no país. No país, segundo a "Swissinfo", suicídios assistidos representam cerca de 1,5% das 67.000 mortes registradas em média a cada ano. Entenda o que é suicídio assistido O que é a AMP? A atrofia muscular progressiva (AMP) é uma doença degenerativa que afeta os neurônios motores, causando uma paralisia progressiva. De acordo com o neurologista Marcondes Cavalcante França Junior, professor titular e chefe do departamento de neurologia da Unicamp, a doença não tem cura. Segundo o médico, a AMP pode começar de forma localizada, como em um braço ou em uma perna, mas sempre progride e se espalha para o restante do corpo. “Ela vai invariavelmente espalhando para todo o corpo e, numa fase mais avançada, a pessoa fica completamente imóvel”, explica. Como age: a AMP é considerada um subtipo da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e, segundo o neurologista, provoca a "morte prematura dos neurônios que comandam os movimentos". Sintomas: incluem fraqueza e perda de massa muscular, que progridem até comprometer funções vitais, como a respiração e a deglutição. Tratamento: os medicamentos disponíveis buscam apenas retardar a progressão da doença, sem interrompê-la. Cuidados com fisioterapia e fonoaudiologia são fundamentais para manter a qualidade de vida. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas